Revista Bizz 1989

Cyndi Lauper Ao Vivo
Eu estava fazendo um show, não estava? Já tinha me esquecido…”No palco do ginásio do Ibirapuera, uma garota desajeitada interrompe aos risos uma longa história sobre como foi espancada quando entregava uma faixa para Elton Jonh, há alguns anos. Depois de passar cinco minutos falando em inglês, ela parece perceber que algo está errado. “Vocês não estão emtendendo nada, não é? Não tem importância, eu não estava mesmo falando nada interessante…”

Uma festa do interior, animada por uma afinadíssima cantora, que adora dançar e contar histórias. Assim poderia ser descrito o show de Cyndi lauper, a antiestrela por exelência. Esqueçam definitivamente qualquer comparação com Madonna: Cyndi é baixinha, gordinha, desengonçada e assumidamente brega. Sua sensualidade – sempre camuflada por um ar de desdém – é apenas um elemento a mais na grande farra promovida pela loirinha desde o instante em que pisa no palco.

“I Drove All Night” é o hit que abre o espetáculo, revelando uma vocalista agitada , que insiste em levantar provocativamente seu vestido transparente de bolinhas pretas. Na Segunda canção , “Change Of Heart”, Cyndi mostra a principal arma para combater a breguice revorrente do seu repertório: uma ênfase maior para o ritmo, conduzido pelas mãos competentes da percussionista Sue Hadjoueoulos, único destaque numa banda apenas correta. O show a parte de Sue, que chega a solar em vários momentos, não é suficiente para salvar um Funk debilóide como “Primitive” – da mesma forma que os vibratos impressionantemente na melosa “My First Night Without You”. Mas nem tudo está perdido: Cyndi é capaz de dar a volta por cima e nos brindar com uma agradável versão de “What’s Going On”, clássico de Marvin Gaye (gravado por ela em True Colors). “Iko Iko”, uma canção tradicional dos negros de Nova Orleans, completa o bloco, envolvendo o público na atmosfera tribal evocada pela percussão.

“Posso parecer louca, mas tenho um bom coração.” Para provar o que diz, Cyndi passa o resto do show intercalando a “loucura” saudável dos hits do primeiro LP, She’s So Unusual, com as bem-intencionadas – e provavelmente chatas- baladinhas do vinil recém-lançado . Bastam os primeiros acordes de “She Bop” para que o público embarque numa dança frenética, que chega ao seu clímax com “Money Changes Everything”. Frenéticos são também os movimentos de Cyndi, que aproveita o embalo para se livrar do vestido, transparente, revelando uma tatuagem que desce por seu pescoço, escondendo-se no decote do mini vestido preto.

Com uma versão diferente de “Girls Just Wanna Have Fun” – que passa do Funk ao reggae sem cerimônia -, a cantora anuncia que a festa está chegando ao fim. A delicada “Kindred Spirit”, já no bis, é interrompida por gritos que pedem “True Colors”, prontamente atendidos. “Está na hora de ir para casa”, diz a nossa contadora de histórias- consciente de que, logo mais, já fara parte do passado, como sempre acontece com as tolices do universo pop. Mas todo mundo só queria mesmo era se divertir…