Cyndi Lauper: Ainda bastante incomum, mas dentro dos limites

JANE WOLLMAN RUSOFF
The New York Times Sindycate

Atualmente, Cyndi Lauper deixou de lado os cabelos cor-de-rosa; na foto, a cantora em show de 2004

A sensação da música pop de uma geração atrás, Cyndi Lauper, com cabelo de ovo de Páscoa e vestida de forma ultrajante em rede de pesca, adereços e padrão de bolinhas, conquistou um prêmio Grammy em 1985 como melhor novo artista. E quem podia argumentar? Seu álbum de estréia, “She’s So Unusual” (1984), se tornou o primeiro a lançar cinco singles top 10, incluindo “Girls Just Want to Have Fun”, “Time After Time” e “She Bop”, canções que se tornaram hinos virtuais da geração MTV original.

Isso foi há muito tempo. Agora com 54 anos, Lauper está casada com o ator David Thornton há 16 anos e é mãe de um menino de 10 anos, Declan. Apesar de ainda manter o jeito de menina e longe de estar subjugada, ela deixou de pintar o cabelo de rosa, azul ou amarelo gema de ovo. Agora, a cantora é, grande parte do tempo, simplesmente loira -o que ela considera “tedioso”- e abandonou as roupas extravagantes, que não combinavam, de seu auge.

“Eu me pareço normal para que meu filho não seja provocado na escola, sabe como é?” ela diz com sua voz aguda, de Betty Boop, e com forte sotaque nova-iorquino, durante uma entrevista por telefone de sua cozinha em Manhattan. “Se eu parecesse a mesma, apenas mais velha, eu seria um bocado assustadora, não seria? Mas minha aparência não é de alguém que vai ao escritório!”

Ela pode parecer mais “normal”, mas em meio a um jantar de peixe da dieta da zona, aquecido em seu forno-torradeira, Lauper -que já vendeu mais de 25 milhões de discos- é alternadamente engraçada e profunda, com linguagem afiada temperando a conversa. Ela está longe de ser tediosa.
“Você precisa ser quem você é. Todos sempre quiseram me mudar, mas quem mais eu seria? Lana Turner em ‘Madame X’ (1966)? Joan Crawford em ‘Alma em Suplício’ (1945)? Oh, aquela cena com Veda na escadaria! Oh, meu Deus! Qualé!”

Em 31 de maio, Lauper deu início ao segundo ano de sua turnê “True Colors” por 25 cidades, um empreendimento conjunto com a Human Rights Campaign visando tanto entreter quanto aumentar a conscientização sobre os direitos dos gays.

O novo álbum de Lauper, “Bring Ya to the Brink”, é uma coleção dançante de novas canções que ela compôs e produziu em parceria com pesos pesados da cena club internacional. Ele soa bastante como ela: após atingir um obstáculo na sua carreira nos anos 80, Lauper já está há mais de uma década de volta à voga.

“Eu me lembrei da minha voz. Eu percebi por que cheguei aqui em primeiro lugar. Se tratava de ter trabalho rico e de ser verdadeira. Porque quando você carrega seu traseiro até o topo da montanha, é melhor ter algo bom para dizer, não é?”

E ela não se limitou a dizer nos álbuns: em 2006, Lauper fez sua estréia na Broadway como Jenny, em uma remontagem do clássico de Weill/Brecht, “A Ópera dos Três Vinténs”. Uma ganhadora do Emmy em 1995 por um papel recorrente em “Mad About You” (1993-1999), a cantora também apareceu nos filmes “Os Oportunistas” (2000) e “Romance e Cigarros” (2005).

A turnê “True Colors”, que visa o empoderamento da comunidade gay, foi idéia de Lauper. Além dela, o lineup rotativo inclui Joan Armatrading, B-52s, Indigo Girls, Joan Jett e as humoristas Kate Clinton, Rosie O’Donnell e Wanda Sykes.

“Eu sou amiga e família da comunidade”, diz Lauper, cuja irmã mais velha é lésbica. “É muito importante para mim. Eu sempre fui altamente ciente de que qualquer um que é diferente sofre discriminação. As leis são realmente uma confusão. Quem diabos morreu e deixou todos no controle de nossos quartos?”

Na sua juventude, Lauper suspeitou que ela mesma fosse lésbica, como era a maioria de suas amigas de infância. Ela tentou “dar as mãos e beijar” sua melhor amiga, mas ela não sentiu nada. “Eu agi tipo, ‘Não é para mim… mas eu te amo'”, ela recorda. “Eu percebi que não era gay… e realmente me senti mal, porque queria me enquadrar.”

Lauper nasceu cantando, como ela coloca, em Astoria, Queens, mas passou seus primeiros quatro anos no Brooklyn. Então a família -mais disfuncional do que a maioria, como ela descreve- se mudou para Ozone Park, de volta ao Queens.

Ela sempre quis se tornar cantora profissional, mas todos a desencorajavam de correr o risco. Em vez disso, após abandonar o colégio, Lauper, que posteriormente foi diagnosticada como disléxica, trabalhou em uma série de empregos, como cuidar dos cavalos no hipódromo em Belmont Park -“Eu cantava canções de George Harrison para acalmar os cavalos”- secretária e garçonete de restaurante.

“Eu fracassei em tudo. Eu fui uma garçonete terrível. No escritório eu era uma ‘garota Sexta-Feira 13’. Eu costumava sonhar acordada sobre os arquivos. Sempre tinha alguém gritando comigo no telefone e tendo um ataque cardíaco. E eu dizia: ‘Calma aí, amigo!'”

Era hora de tentar o show business.

“Depois que você fracassa em tudo, você não tem nada a perder.”
Lauper e aquela melhor amiga citada antes formaram uma dupla folk, e fizeram sua primeira apresentação em um festival folk no velho Gaslight Club, em Manhattan. Em seguida a dupla foi contratada por um café em Rego Park, Queens, que não tinha microfone.

“O sujeito me disse: ‘Escuta, menina, nós temos telhas acústicas. Basta você apontar sua voz lá para cima!'”

Elas foram demitidas, ela acrescenta, quando seus amigos na platéia importunaram os humoristas do programa.

“Aquele sujeito nunca nos pagou. Aquele rato!”

Curiosamente, em grande parte do tempo a voz de canto de Lauper pouco se assemelha ao seu sotaque nova-iorquino característico.

“Graças a Deus! Dá para imaginar? Eu não tenho idéia do motivo. Quando canto, eu simplesmente entro em transe.”

Mas seu marido não é do bairro: ele não apenas nasceu no Colorado, mas também é filho de um professor de inglês de Harvard. Ele é conhecido por provocar Lauper por causa de seu sotaque e sua gramática fora do padrão.
“Ás vezes eu falo errado. David ri, mas ele se preocupa que Declan faça o mesmo.”

Seus lapsos lingüísticos sem dúvida faziam estremecer seu falecido sogro, Robert Donald Thornton, uma autoridade internacional no poeta escocês Robert Burns.

“Quando David e eu nos casamos”, ela lembra rindo, “eu disse: ‘Pai, não fique triste. Você não está perdendo um filho -você está ganhando alguém que não fala muito bem!”

Mas nem tudo foi motivo de risada para Lauper. Cinco anos após seu estouro, com as vendas de seu álbum despencando e os ingressos de shows não vendendo, ela parecia estar à beira de desaparecer, a novidade que esgotou seus 15 minutos de fama. Foi necessária uma década de trabalho árduo para reconstruir sua carreira.

“Foi uma época difícil para mim. Eu precisei dar um tempo. A Sony (sua gravadora naquela época e agora) não era a mesma que costumava ser. De repente, não eram mais os meus termos. Eu não queria a roda de hamster. Eu vi mudança no rádio. Eu estava tentando agradar a todos, e a única pessoa que devia estar agradando era a mim mesma.”

“Eu devia ter dito, ‘Chega!’ Mas eu não sabia como.”

De lá para cá ela descobriu, e agora a maternidade a inspira a ampliar seu foco, para incluir os direitos dos gays e outras causas pelas quais se importa.

“Em que tipo de mundo meu filho vai crescer? O mesmo velho de sempre? As pessoas precisam descer de seus cavalos altos e começar a ajudar aqueles que estão por baixo.”

(Jane Wollman Rusoff é uma jornalista free-lance baseada em Los Angeles.)

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